Os negacionistas do aquecimento global conseguem mais espaço nos veículos de comunicação de língua inglesa do que os cientistas. Em grande parte, isso se deve às novas mídias digitais, apontou estudo de pesquisadores de uma universidade dos Estados Unidos.
Na comunidade científica, há uma grande convergência sobre as evidências do aquecimento global e das mudanças climáticas, cuja origem se encontra nas atividades humanas. Contudo, segundo o estudo, nos Estados Unidos o negacionismo tem organizado um forte movimento contrário na política e na comunicação científica.
Pesquisas de historiadores da ciência mostraram que o objetivo dos negacionistas é distorcer a narrativa baseada na ciência. Os esforços de desinformação dependem de vários fatores humanos, sociais e tecnológicos. Um deles diz respeito à mídia, que possui um papel fundamental na formação da política cultural.
A internet constitui uma tecnologia que está modificando o panorama da produção e distribuição de conteúdo, particularmente através de novas mídias. Observam-se susceptibilidades à profundas manipulações da informação. Por exemplo, diferenças entre os produtores de conteúdo, ou então a um viés mais profundo em termos do tipo de cobertura realizado.
O estudo investigou como mídias dos Estados Unidos, tradicionais e da internet, abriam espaço e atribuíam autoridade tanto a cientistas da ciência climática quanto a negacionistas. Para tanto, eles listaram 386 negacionistas e 386 cientistas. Para cada grupo, verificaram a quantidade de artigos científicos e de artigos em veículos de comunicação publicados.
Os pesquisadores compararam a autoridade científica e a visibilidade na mídia dos indivíduos e dos grupos avaliados. Também mapearam as citações em outros artigos científicos e as reprodução de textos em diversos veículos de comunicação. Mídias sociais como Facebook e Twitter não foram incluídas no estudo.
Verificou-se uma grande disparidade na produção científica dos dois grupos. A começar pelo fato de que, entre os negacionistas, somente 224 deles haviam publicado algum artigo científico. Em média, desse total, a produção científica individual havia sido em média de 15 artigos por indivíduo.
Consistiu em um número significativamente mais baixo, em comparação com um grupo de 224 cientistas. Em média, esse total de cientistas publicou quase 4 vezes mais artigos científicos no mesmo período.
Outro importante fator é a quantidade de citações de um artigo publicado por outros cientistas. As citações representam um indicador da relevância do conhecimento elaborado e de sua contribuição dentro da comunidade científica. Artigos de cientistas obtiveram quase 8 vezes mais citações do que artigos de negacionistas.
A fim de retratar a relevância do conhecimento científico produzido pelos dois grupos, o estudo traçou a quantidade de citações de cada um em relação à comunidade científica. Eles examinaram os artigos científicos publicados por outros 50 mil cientistas da ciência climática.
Enquanto o grupo de 224 cientistas somaram 20,2% do total de citações - incluindo os dois grupos e os demais 50 mil cientistas, os negacionistas tiveram apenas 1,1%. Além de um número menor de negacionistas terem sido citados - 168 entre o total de 224 indivíduos -, eles ocupavam um local periférico na produção científica.
Apesar da grande distância em termos de contribuição para a ciência, ao analisar todas as fontes de mídia, registrou-se uma quantidade 49% maior de matérias de negacionistas do que de cientistas. Ocorreram, no entanto, variações.
Os negacionistas obtiveram uma visibilidade bem maior do que os cientistas em veículos de informação da internet. Em veículos de comunicação tradicionais, foi identificado uma visibilidade relativamente semelhante entre cientistas e negacionistas. De acordo com o estudo, o motivo poderia ser a intenção de promover um falso equilíbrio jornalístico ao reportar as mudanças climáticas.
Isso consistiria ainda em um viés, dada a grande diferença em termos de produção e contribuição científica entre os dois grupos. Ao gerar um equilíbrio de perspectivas na cobertura jornalística, os veículos de comunicação tradicionais apresentam uma visão distorcida do conhecimento científico, inflando a autoridade e credibilidade de negacionistas.
O público fica exposto a um quadro que não reflete a ciência. Se na mídia tradicional se observa uma distorção da produção científica, o problema é significativamente agravado nos veículos de comunicação da internet. Eles comprometem a identificação de fontes confiáveis, levando a um dilúvio de desinformação favorável aos negacionistas.
O conhecimento a respeito do aquecimento global, dessa forma, distorcido pela mídia tradicional, acaba ainda mais prejudicado na lama da internet. É preciso melhorar o gerenciamento e o controle de qualidade das fontes de informação. Caso contrário, o profissionalismo e a supervisão editorial continuarão comprometidos.
Mais informações: Petersen, A. M., Vincent, E. M., & Westerling, A. L. (2019). Discrepancy in scientific authority and media visibility of climate change scientists and contrarians. Nature communications, 10(1), 1-14.
Imagem: Unsplash/ Roman Kraft
Na comunidade científica, há uma grande convergência sobre as evidências do aquecimento global e das mudanças climáticas, cuja origem se encontra nas atividades humanas. Contudo, segundo o estudo, nos Estados Unidos o negacionismo tem organizado um forte movimento contrário na política e na comunicação científica.
Pesquisas de historiadores da ciência mostraram que o objetivo dos negacionistas é distorcer a narrativa baseada na ciência. Os esforços de desinformação dependem de vários fatores humanos, sociais e tecnológicos. Um deles diz respeito à mídia, que possui um papel fundamental na formação da política cultural.
A internet constitui uma tecnologia que está modificando o panorama da produção e distribuição de conteúdo, particularmente através de novas mídias. Observam-se susceptibilidades à profundas manipulações da informação. Por exemplo, diferenças entre os produtores de conteúdo, ou então a um viés mais profundo em termos do tipo de cobertura realizado.
O estudo investigou como mídias dos Estados Unidos, tradicionais e da internet, abriam espaço e atribuíam autoridade tanto a cientistas da ciência climática quanto a negacionistas. Para tanto, eles listaram 386 negacionistas e 386 cientistas. Para cada grupo, verificaram a quantidade de artigos científicos e de artigos em veículos de comunicação publicados.
Os pesquisadores compararam a autoridade científica e a visibilidade na mídia dos indivíduos e dos grupos avaliados. Também mapearam as citações em outros artigos científicos e as reprodução de textos em diversos veículos de comunicação. Mídias sociais como Facebook e Twitter não foram incluídas no estudo.
Verificou-se uma grande disparidade na produção científica dos dois grupos. A começar pelo fato de que, entre os negacionistas, somente 224 deles haviam publicado algum artigo científico. Em média, desse total, a produção científica individual havia sido em média de 15 artigos por indivíduo.
Consistiu em um número significativamente mais baixo, em comparação com um grupo de 224 cientistas. Em média, esse total de cientistas publicou quase 4 vezes mais artigos científicos no mesmo período.
Outro importante fator é a quantidade de citações de um artigo publicado por outros cientistas. As citações representam um indicador da relevância do conhecimento elaborado e de sua contribuição dentro da comunidade científica. Artigos de cientistas obtiveram quase 8 vezes mais citações do que artigos de negacionistas.
A fim de retratar a relevância do conhecimento científico produzido pelos dois grupos, o estudo traçou a quantidade de citações de cada um em relação à comunidade científica. Eles examinaram os artigos científicos publicados por outros 50 mil cientistas da ciência climática.
Enquanto o grupo de 224 cientistas somaram 20,2% do total de citações - incluindo os dois grupos e os demais 50 mil cientistas, os negacionistas tiveram apenas 1,1%. Além de um número menor de negacionistas terem sido citados - 168 entre o total de 224 indivíduos -, eles ocupavam um local periférico na produção científica.
Apesar da grande distância em termos de contribuição para a ciência, ao analisar todas as fontes de mídia, registrou-se uma quantidade 49% maior de matérias de negacionistas do que de cientistas. Ocorreram, no entanto, variações.
Os negacionistas obtiveram uma visibilidade bem maior do que os cientistas em veículos de informação da internet. Em veículos de comunicação tradicionais, foi identificado uma visibilidade relativamente semelhante entre cientistas e negacionistas. De acordo com o estudo, o motivo poderia ser a intenção de promover um falso equilíbrio jornalístico ao reportar as mudanças climáticas.
Isso consistiria ainda em um viés, dada a grande diferença em termos de produção e contribuição científica entre os dois grupos. Ao gerar um equilíbrio de perspectivas na cobertura jornalística, os veículos de comunicação tradicionais apresentam uma visão distorcida do conhecimento científico, inflando a autoridade e credibilidade de negacionistas.
O público fica exposto a um quadro que não reflete a ciência. Se na mídia tradicional se observa uma distorção da produção científica, o problema é significativamente agravado nos veículos de comunicação da internet. Eles comprometem a identificação de fontes confiáveis, levando a um dilúvio de desinformação favorável aos negacionistas.
O conhecimento a respeito do aquecimento global, dessa forma, distorcido pela mídia tradicional, acaba ainda mais prejudicado na lama da internet. É preciso melhorar o gerenciamento e o controle de qualidade das fontes de informação. Caso contrário, o profissionalismo e a supervisão editorial continuarão comprometidos.
Mais informações: Petersen, A. M., Vincent, E. M., & Westerling, A. L. (2019). Discrepancy in scientific authority and media visibility of climate change scientists and contrarians. Nature communications, 10(1), 1-14.
Imagem: Unsplash/ Roman Kraft


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