Agricultura orgânica para limitar o aquecimento

O setor agrícola contribui para o aquecimento global por meio de grandes volumes de emissões de gases de efeito estufa. Uma medida viável para mitigar as emissões do setor é a implantação de sistemas de agricultura orgânica, indicou estudo de um grupo de pesquisadores de universidades da Alemanha e da Suíça.

Estima-se que a agricultura responda por cerca de 10% a 12% das emissões totais de dióxido de carbono equivalente - CO2eq. Incluindo atividades indiretamente ligadas ao setor, como a produção de fertilizantes ou o desmatamento, a participação no total de emissões pode chegar a 30%.

No caso do metano - CH4 - e do óxido nitroso - N2O -, o setor contribui com 56% das emissões totais, e apresenta uma taxa de crescimento anual de quase 1%. Segundo o estudo, por volta de 38% das emissões diretas da agricultura são provenientes de práticas de fertilização dos solos.

O quadro atual é um reflexo da Revolução Verde, a partir da década de 1950, quando cresceu a disponibilidade de fertilizantes sintéticos baratos. Entre 1970 e 2010, a colheita mundial de grãos dobrou, alcançando 2,5 bilhões de toneladas anuais.

A produtividade média atingiu entre 1600 e 3030 quilos por hectare. A intensificação das práticas agrícola da Revolução Verde se sustentou na aplicação em massa de fertilizantes, cujo uso subiu mais de 300%. Ao mesmo tempo, interferiu negativamente na qualidade ambiental, levando, por exemplo, à perda de biodiversidade ou degradando os solos.

Mas agora a agricultura está sob a ameaça de impactos severos do aquecimento global e das mudanças climáticas. Os pesquisadores apontaram para a insustentabilidade das práticas modernas, calcadas em fertilizantes sintéticos e pesticidas.

Abordagens agroecológicas se tornam cada vez mais fundamentais para a produção futura de alimentos. Todavia, pouco se conhece sobre os fluxos de metano e óxido nitroso da agricultura orgânica.

Porque constituem potentes gases de efeito estufa, a redução das emissões de metano e óxido nitroso teria um grande potencial para limitar em curto prazo a taxa de aquecimento global.

O estudo comparou as emissões provenientes dos solos em dois sistemas de agricultura biológica - um biodinâmico e outro orgânico - com dois sistemas tradicionais. Todos os sistemas avaliados reproduziam práticas agrícolas adotadas na Suíça.

Foram observadas emissões acumuladas de óxido nitroso em média aproximadamente 40% menores em sistemas orgânicos do que em sistemas não orgânicos. Não se registraram alterações significativas nas emissões de metano.

O tempo representou um fator importante. A diminuição das emissões de óxido nitroso se dá em longo prazo. Isso porque, simultaneamente, a qualidade dos solos melhora, com aumento da concentração de carbono orgânico, da biomassa e diversidade de micro-organismos.

Uma avaliação mais abrangente da redução de emissões da agricultura orgânica demandaria uma análise mais abrangente, contemplando todo o processo produtivo. Todavia, do ponto de vista das emissões dos solos, os resultados indicaram o potencial da agroecologia como estratégia de produção de alimentos com limitação do aquecimento global.


Mais informações: Skinner, Colin, et al. "The impact of long-term organic farming on soil-derived greenhouse gas emissions." Scientific Reports9.1 (2019): 1702.
Imagem: Unsplash/ Thomas Gamstaetter

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