Plantas do Cerrado sob o risco de extinção

As mudanças climáticas e as mudanças no uso da terra poderão trazer grandes prejuízos à flora do Cerrado, apontou estudo de pesquisadores de universidades do Brasil. Os impactos serão maiores em áreas com grande riqueza de espécies.

As emissões de gases de efeito estufa, lembra o estudo, atingiram os níveis mais altos registrados na história. Suas consequências colocam em risco os sistemas sociais e naturais.

No entanto, um dos maiores fatores atuais para a perda da biodiversidade consiste na perda de habitat. Em função da demanda por alimentos e energia, grandes extensões de cobertura vegetal tem sido convertidas para uso humano, levando ao comprometimento ecológico da maior parte da área terrestre mundial.

Dessa forma, aos efeitos da mudança no uso da terra, irão se somar aqueles provocados pelas mudanças climáticas. No caso do uso da terra, os impactos se originam de modificações da paisagem.

Por sua vez, as mudanças climáticas podem influenciar a distribuição geográfica das espécies, tornando áreas de preservação ineficazes para a proteção da biodiversidade. O trabalho de conservação se torna ainda mais desafiador.

Segundo o estudo, a vulnerabilidade de uma espécie à extinção considera sua área de ocorrência geográfica dentro e fora de áreas protegidas. Via de regra, espécies com grandes faixas de distribuição localizadas em áreas de conservação apresentam uma menor vulnerabilidade.

Uma vez que as mudanças climáticas interferem na distribuição de espécies, elas podem tornar o território dentro de áreas protegidas inadequado. Nesse cenários, a vulnerabilidade à extinção crescerá significativamente caso a mudança de uso da terra reduza simultaneamente o habitat da espécie fora das áreas protegidas.

Um bioma com alta diversidade e grau de endemismos, o Cerrado da América do Sul tem se caracterizado pela intensa antropização e fragmentação da paisagem. Estendendo-se pelo Planalto Central do Brasil até partes da Bolívia e do Paraguai, ele apresenta menos de 20% da vegetação intacta.

A fim de explorar a influência combinada do uso da terra e das mudanças climáticas no Cerrado, os pesquisadores utilizaram um modelo computacional de distribuição de distribuição de 1.553 espécies de plantas.

Foram investigados dois cenários futuros de aquecimento global - um de médias e outro de altas emissões de gases de efeito estufa -, além de um cenário de mudança do uso da terra. Ambos abrangeram o período entre 2050 e 2080.

Nas condições atuais, os resultados do modelo sugeriram que a distribuição de espécies do Cerrado caiu pela metade devido às mudanças históricas no uso da terra.

O gráfico à esquerda mostra a redução na área de distribuição de plantas
estimada para o presente. As mudanças climáticas levarão à reduções adicionais (gráfico a),
o que será mais acentuado quando também se leva em consideração a influência da
mudança no uso da terra (gráfico b). Fonte: figura 2 do estudo.

As simulações dos cenários futuros indicaram um panorama ainda mais negativo. Levando em conta somente a influência das mudanças climáticas, estimou-se uma queda entre 34% a 40% na área de distribuição de espécies para o cenário de médias emissões. Entre 15 e 21 espécies poderiam se tornar extintas.

No cenário de altas emissões, a queda da área de distribuição cresceria para entre 43% e 60%. O número de espécies que enfrentariam a extinção subiria para entre 25 e 51. As maiores perdas associadas às mudanças climáticas seriam na Bolívia, país com a menor taxa de interferência da mudança do uso da terra.

Quando as simulações incluíram também a mudança no uso da terra, a redução da área de distribuição se mostrou significativamente maior. Até 2080, em ambos os cenários um total de 55 espécies poderia ser extinta.

A rede de unidades de conservação do Cerrado não se mostrou eficaz. Somente uma pequena quantidade das espécies estudadas estão representadas dentro das áreas protegidas. Nos cenários futuros, o papel das áreas de conservação pode ficar ainda mais comprometido.

A vulnerabilidade à extinção de grande parte das espécies de plantas do Cerrado aumentará, concluiu o estudo. A conservação ficará seriamente afetada sem o planejamento e a implementação de estratégias de adaptação adequadas.


Mais informações: Velazco, S.J.E., Villalobos, F., Galvão, F. and De Marco Júnior, P., 2019. A dark scenario for Cerrado plant species: Effects of future climate, land use and protected areas ineffectiveness. Diversity and Distributions.
Imagem: Flickr/ Edson Martins

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