Para quem sai de Belo Horizonte em direção ao lago de Três Marias, é possível avistar na beira da estrada barraquinhas vendendo um produto específico. E se a pesca constitui o motivo da viagem, o mais provável será fazer uma parada em uma delas.
As barraquinhas pertencem a vendedores de minhocuçu, uma espécie de minhoca gigante utilizada como iscas para a pesca amadora. De nome científico Rhinodrilus alatus, o minhocuçu é endêmico do Cerrado, sendo encontrado somente na porção sul da Bacia do Rio São Francisco.
Apesar de muitas vezes ilegal - deve-se obter autorização para o comércio de animais silvestres -, a venda de minhocuçu consiste em uma atividade tradicional, iniciada há mais de 70 anos atrás. Ela representa a principal fonte econômica para algumas comunidades tradicionais.
Mas o comércio de minhocuçu pode chegar ao fim devido ao aquecimento global. Estudo de pesquisadores da Universidade Estadual de Feira de Santana e da Universidade Federal de Minas Gerais indicou que a população de minhocuçu poderá cair significativamente em um futuro de aquecimento global.
![]() |
| Mapa indica a área de distribuição do minhocuçu. Na escala, a cor azul indica áreas menos adequadas, e a cor vermelha, mais adequadas. Fonte: figura 2 do estudo. |
Como consequência, as práticas de coleta tradicional poderia entrar em colapso.
O aquecimento global e as mudanças climáticas estão interferindo na ocorrência e distribuição espacial de espécies em todo o mundo. Para investigar os impactos sobre o minhocuçu, os pesquisadores utilizaram um modelo computacional de nicho ecológico.
Esse modelos descrevem a distribuição atual de uma ou mais espécies, a partir de suas exigências ambientais específicas. Eles também auxiliam na projeção de modificações na distribuição espacial, a partir de variações climáticas no passado ou no futuro.
O estudo identificou os fatores ambientais envolvidos na distribuição atual do minhocuçu. A partir daí, foram realizadas simulações com o modelo para cenários passados e futuros. Os primeiros abrangeram a reprodução de condições climáticas durante o auge da última glaciação, há aproximadamente 21 mil anos atrás, e durante o atual período interglacial, mas há cerca de 6 mil anos atrás.
Para explorar os possíveis impactos do aquecimento global, foram considerados um cenário de médias e outro de altas emissões de gases de efeito estufa até o ano de 20170.
Durante as condições mais frias e secas da última glaciação, o modelo indicou uma grande perda de área suscetível à ocorrência da espécie. À medida que o clima esquentou e se tornou mais úmido, até assumir as características quentes e úmidas atuais, expandiu-se a área favorável à presença do minhocuçu.
As projeções dos cenários de médias e de altas emissões de gases de efeito estufa se mostraram semelhantes. Elas sugerem uma severa contração e fragmentação de habitat adequado à sobrevivência do minhocuçu.
As áreas mais favoráveis se deslocarão latitudinalmente para o sul, ou para locais de maior altitude, fora dos limites atuais de ocorrência da espécie.
Frente às modificações, a espécie enfrentará um grande risco de queda em sua população. Ela pode se tornar rara ou mesmo extinta em algumas regiões. Com isso, os usos tradicionais do minhocuçu poderiam ser afetados.
O estudo alertou para a necessidade de implantação imediata de medidas para a conservação da espécie, bem como de alternativas de adaptação para as comunidades locais.
Mais informações: HUGHES, F.M., CÔRTES-FIGUEIRA, J.E. and DRUMOND, M.A., 2018. Anticipating the response of the Brazilian giant earthworm (Rhinodrilus alatus) to climate change: implications for its traditional use. Anais da Academia Brasileira de Ciências, (AHEAD).
Imagem: adaptado da figura 1 do estudo



Comentários
Postar um comentário