Riscos das mudanças climáticas subestimados

Os riscos das mudanças climáticas não tem sido caracterizados apropriadamente, apontou estudo de pesquisadores de universidade dos Estados Unidos. No caso das chuvas, ao se concentrar em tendências médias, as análises de risco deixam de considerar alterações na probabilidade e intensidade de eventos extremos.

O estudo ressalta a importância para a vida das pessoas das modificações que o avanço do aquecimento global pode provocar nos padrões das chuvas. Além da água doce, também dependem da precipitação atividades como a agricultura, os sistemas de energia, o abastecimento.

Os ecossistemas e a ocorrência de epidemias de doenças também possuem relação com a quantidade de chuvas.

Tanto episódios extremos de excesso de chuvas, quanto de ausência das mesmas, ultrapassando os limites da variabilidade interanual, elevam os riscos de impactos prejudiciais para a natureza e a sociedade. Por exemplo, secas afetam as culturas agrícolas e causam perdas econômicas.

Apesar de extensivamente pesquisada em escalas regionais e globais, as tendências históricas anuais e sazonais de chuva apresentam uma limitação. Um dos métodos mais comumente utilizado pode não retratar fielmente a variação de totais anuais extremos - altos ou baixos - da precipitação.

O motivo seria que as tendências dos eventos extremos não acompanham necessariamente as tendência dos totais médios anuais de precipitação. Dessa forma, a ênfase na análise das tendências médias pode mascarar - para mais ou para menos - as tendências dos eventos extremos.

Os relatórios de análise do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas - IPCC, na sigla em inglês - utilizam o método tradicional.

Para verificar essa questão, o estudo reavaliou os dados da precipitação anual global do período entre 1950 e 2007. Foi utilizada uma técnica pela qual as tendências médias e aquelas dos eventos extremos são investigadas separadamente.

Em todo o mundo, os resultados identificaram regiões nas quais as tendências dos eventos extremos de chuva ou secas se comportaram de forma distinta da tendência média anual. Calculou-se que o método tradicional não considerava esse fato em cerca de 40% da área terrestre.

No centro-oeste dos Estados Unidos, no norte do Canadá, na Ásia central e na Indonésia, o método tradicional negligenciava o aumento de risco de chuvas extremas e o aumento da variabilidade. Por outro lado, esse risco diminuiu particularmente na África Austral, na América do Sul e em partes do norte da Ásia.

Também negligenciado pelo método anterior foi um aumento do risco de condições secas em partes do sul da Europa, no oeste dos Estados Unidos, no sul do Canadá e no norte da África.

Mapa de áreas agrícolas dependentes de chuva (a) e gráfico do total no qual as tendências de extremos de secas ou chuvas não havia sido considerada pela abordagem convencional (b). O mesmo tipo de gráfico é apresentado para as diversas regiões do mundo (c). Fonte: figura 4 do estudo.

No caso da agricultura, os pesquisadores analisaram as tendências de chuva nas áreas do planeta ocupadas por cultivos dependentes da chuva. Em quase 41% do total, as tendências dos eventos extremos foram distintas das tendências médias.

O planejamento e a implementação de ações de adaptação às mudanças climáticas requer a compreensão dos potenciais riscos e impactos. Se os riscos não são identificados de forma correta, alertou o estudo, pode-se subestimar a urgência ou levar a estratégicas de adaptação inapropriadas.

O estudo mostrou que para grandes regiões do planeta, a abordagem convencional não considerava as tendências de eventos extremos e precipitação. Os resultados permitirão que a análise de riscos climáticos seja revisada.


Mais informações: Lausier, A. M., & Jain, S. (2018). Overlooked Trends in Observed Global Annual Precipitation Reveal Underestimated Risks. Scientific reports, 8(1), 16746.
Imagem: figura 3 do estudo - mapa com identificação de locais com tendências de eventos extremos diferente da calculada pelo método tradicional. t=0.2 corresponde a secas e t=0.8 a chuvas. As cores marcam lugares sem tendências (0) ou com tendências positivas (+) ou negativas (-), combinando-se o registrado para os extremos de seca e de chuva.

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