Preço do carbono será sempre polêmico

Calcular o custo social do carbono será sempre uma atividade polêmica, afirmou artigo de pesquisador de uma universidade da Austrália. Ainda há muita incerteza sobre a magnitude dos impactos de longo prazo que o aquecimento global irá provocar.

O custo social de carbono constitui um indicador do dano econômico futuro do aquecimento global e das mudanças climáticas. Por meio da projeção de impactos sobre as atividades humanas e sobre diversos setores da sociedade, levantam-se os seus custos para a economia.

A partir daí, é possível calcular quanto cada tonelada de dióxido de carbono - CO2 - emitida no presente representará em termos dos custos futuros dos impactos do aquecimento global. O CO2 é o principal gás de efeito estufa.

O indicador é utilizado em políticas climáticas. Um dos exemplos se encontra nos Estados Unidos, onde o custo social do carbono serve como base para a análise de custo-benefício de regulamentações ligadas ao tema.

De acordo com o artigo, geralmente o método utilizado para cálculo do custo social do carbono se baseia em modelos computacionais. Tais ferramentas são simplificações, e levam em consideração hipóteses incertas.

Um dos elementos centrais dos modelos - a fórmula que associa danos econômicos ao aumento da temperatura média global - tem sido alvo de severas críticas na literatura. Entre outras, contesta-se as fórmulas adotadas, as premissas e os parâmetros aplicados, ou os tipos de impactos levados ou não em consideração.

Nas palavras de um dos críticos aos modelos, as funções de dano dos modelos "são completamente inventadas, sem fundamento teórico ou empírico". Em outras palavras, não passariam de um palpite educado.

Mas não é somente a limitação dos modelos que impede a realização de um cálculo preciso do custo social do carbono. Outro motivo também contribuiria para a incerteza: não há uma estimativa científica dos danos econômicos dos cenários de altas emissões de gases de efeito estufa.

Existe a possibilidade de que até 2100 tais cenários se concretizem. Eles representam um mundo no qual a temperatura média global subiria mais de 3°C acima dos níveis pré-industriais.

O problema, argumentou o pesquisador, diz respeito ao muito pouco que se conhece do custo econômico desses cenários. O nível e a velocidade do aquecimento seriam sem precedentes na história terrestre.

Não cabe estabelecer previsões de longo prazo a respeito os impactos do aquecimento global. A ciência climática trabalha com projeções. As simulações dos danos das mudanças climáticas futuras consistem em possibilidades. Estão condicionadas a suposições que podem ou não ser realizadas.

De um lado, projeções de longo prazo de variáveis como a temperatura e a precipitação, devido à complexidade do sistema climático, estão centradas na identificação de valores médios. Mas os impactos são provocados por eventos meteorológicos, ligados à variabilidade do Tempo, e que não são representados pela média.

Além disso, o sistema climático possui pontos de inflexão, nos quais pequenas alterações podem desencadear grandes e irreversíveis mudanças. Eles ainda são pouco conhecidos.

Finalmente, a resposta de alguns componentes do sistema, como as calotas polares, pode levar centenas de anos. Isso torna a projeção de impactos de muito longo prazo ainda mais imprevisível.

Se a ciência climática apresenta incertezas quase intransponíveis, no campo da ciência social elas são ainda mais profundas. A ideia de estabelecer leis quantitativas para o modo como as sociedades responderão às mudanças climáticas, e que possam compor modelos computacionais, soa como uma ingenuidade.

O artigo recomendou a adoção de uma metodologia diferente. Em vez de calcular o custo social do carbono, os modelos poderiam ser utilizados para estimar os custos de redução marginais de diferentes preços de carbono.

A proposta abrange a pesquisa de caminhos ou cenários viáveis, de baixo custo, que contribuam para que uma meta climática, socialmente acordada, seja cumprida. A partir daí, estabelecer um preço para o carbono.


Mais informações: Pezzey, J. C. (2018). Why the social cost of carbon will always be disputedWiley Interdisciplinary Reviews: Climate Change, e558.
Imagem: Freeimages

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