Perdas econômicas na agricultura brasileira

As mudanças climáticas irão afetar a agricultura brasileira, com impactos econômicos distintos nas diversas regiões do país, de acordo com estudo de pesquisadores da Universidade de São Paulo.

A influência do clima sobre uma região se dá por meio de interferências na produtividade das culturas ao longo do tempo. Impactos diretos e indiretos afetam diversos agentes econômicos, incluindo escassez de produtos agrícolas, aumento de custos, perda de renda ou redução da demanda.

Os pesquisadores investigaram os possíveis impactos das mudanças climáticas sobre as seis principais culturas agrícolas do Brasil: soja, cana-de-açúcar, milho, café, feijão e laranja. Juntas, essas culturas responderam por 81% da área cultivada no país entre 2010 e 2015.

Foram utilizadas as projeções de aumento da temperatura e de mudança na precipitação em todo o país até 2100, considerando um cenário de baixas e outro de altas emissões de gases de efeito estufa. Através de um modelo econômico, estimou-se os efeitos sobre a produtividade agrícola e sobre a economia.

O estudo sugere que, no cenário de baixas emissões de gases de efeito estufa, as principais culturas brasileiras manteriam o patamar atual de produtividade. Os estados com mais prejudicados foram Alagoas, São Paulo e Sergipe, com quedas médias entre cerca de 4% e 5%.

Gráfico da projeção de impactos na cultura do café nos cenários de baixas (azul) e de altas emissões de gases de efeito estufa (vermelho). Fonte: figura B5 do estudo.

No cenários de altas emissões, no entanto, grandes perdas ocorreriam até 2100. As projeções indicaram perdas de 16%, 22% e 30% na produção anual de feijão, milho e soja até o fim do século. Cana, laranja e café experimentariam declínios ainda maiores, respectivamente de 33%, 34% e 50%.

Os estados com as maiores perdas no cenário de altas emissões foram os da região Centro-Oeste. Estimaram-se perdas da ordem de quase 12% no Mato Grosso do Sul, 8,5% no Mato Grosso e aproximadamente 8% em Goiás.

Estimou-se perdas econômicas totais da ordem de 0,68% ao ano sob o cenário de baixas emissões, e de 3,37% ao ano sob o cenários de altas emissões até o fim do século.

No cenário de baixas emissões, calculou-se que os impactos econômicos negativos totais somariam R$ 2,85 trilhões, valor que se elevaria para quase R$ 13 trilhões no cenário de altas emissões. Ganhas e perdas se distribuem de forma desigual ao longo do país.

Gráfico da projeção de impactos na cultura de laranja nos cenários de baixas (azul) e de altas emissões de gases de efeito estufa (vermelho). Fonte: figura B6 do estudo.

As projeções apontaram ganhos para o Acre, Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Pará, Piauí, Paraná e Rio Grande do Sul no cenário de baixas emissões - em torno de R$ 1,02 trilhão. Todavia, os demais estados brasileiros experimentariam perdas mais que três vezes maiores.

Os impactos econômicos seriam bem mais pronunciados no cenário de altas emissões. Apenas Acre, Amazonas, Bahia, Espírito Santo e Pará experimentariam algum ganho econômico. Os outros estados do Brasil teriam de suportar perdas estimadas em quase R$ 14 trilhões.

Os pesquisadores ressaltaram que as regiões Nordeste e Sudeste seriam as mais afetadas negativamente do ponto de vista econômico no cenário de baixas emissões. Em função da maior integração regional, no cenário mais pessimistas as regiões mais afetadas seriam a Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Mais informações: de Souza, B. S., & Haddad, E. A. Mudanças Climáticas no Brasil: Efeitos Sistêmicos sob Cenários de Incerteza
Imagem: Freeimages

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