Influência das mudaças climáticas na incidência de verminoses

As mudanças climáticas poderão afetar a prevalência e a incidência de algumas verminoses e infecções por endoparasitas humanos, alertou artigo de pesquisadores dos Estados Unidos.

Aumento das temperaturas, alterações nos padrões e distribuições de chuvas, entre outros, devem se intensificar nas próximas décadas. Em conjunto com fatores sociais como urbanização, migrações, ou situação econômica, os fatores climáticos influenciarão as populações de espécies de parasitas e as doenças que provocam.

O artigo ressaltou que os efeitos das mudanças climáticas variarão de acordo com a espécie de parasita e com os seus hospedeiros. Além disso, o clima irá interagir com os fatores sociais e também com medidas de saúde pública, como a medicação, na determinação de uma maior ou menor incidência de verminoses.

Dessa forma, projetar a influência da mudança do clima consiste em uma tarefa extremamente complexa. Todavia, as projeções servem como instrumentos para orientar e informar o planejamento de ações de saúde pública. Os pesquisadores apresentaram um resumo das principais tendências registradas pela literatura científica.

A maior tolerância ao calor e o ciclo de vida mais curto entre as fases de larva e adulto poderá favorecer os ancilóstomos na África, responsáveis pela doença popularmente conhecida como amarelão. Entre os sintomas da doenças se incluem dor de barriga, diarréia, náusea e febre.

Em infecções mais agudas, a doença pode causar anemia, prejudicar o desenvolvimento físico e intelectual de crianças ou tornar a pele amarelada. O ancilóstomo poderia, mediante o aumento das temperaturas, expandir a sua distribuição geográfica para as áreas mais ao sul da África.

A maior resistência da espécie à influência dos fatores climáticos poderia a tornar o parasita dominante no continente africano. Com isso, ele passaria a necatoríase como a doença de maior prevalência no continente.

Causada pelo verme popularmente conhecido como lombriga, as alterações no clima poderão ser desfavoráveis à ocorrência de ascaridíase na África. Contudo, a espécie apresenta capacidade de suportar temperatura e aridez maiores na Ásia, além de sobreviver em ambientes urbanos. Assim, algumas pesquisas sugeriram que a doença pode se tornar predominante na região.

No caso da esquistossomose, várias espécies de caracóis hospedeiros do parasita Schistosoma mansoni podem experimentar perda de habitat em função do aumento da temperatura, das secas e do florescimento de algas na África. A taxa de mortalidade dos caracóis e das larvas do parasita, chamadas de cercárias.

Com exceção de partes da região leste e do sul do continente africano, espera-se uma redução do alcance e da abundância da doença. Por outro lado, o aquecimento global seria favorável à expansão geográfica de caracóis hospedeiros da espécie Schistosoma japonicum na Ásia.

Segundo o estudo, várias espécies de mosquitos transmitem filárias, vermes que infectam diferentes partes do corpo. Entre eles, há espécies que ocupam o sistema linfático e podem levar aos sintomas da elefantíase. Uma modelagem de nicho ecológico indicou que uma combinação entre crescimento populacional e mudanças climáticas dobraria o número de pessoas expostas à doença.

O Nepal forneceu um exemplo de como as alterações no clima favoreceriam a expansão da doença. As regiões montanhosas do país eram consideradas de baixo risco de transmissão, devido à incapacidade dos mosquitos vetores de sobreviverem. Mas uma análise de vigilância sanitário identificou uma expansão da doença para as regiões montanhosas.

A oncocercose, também conhecida como mal do garimpeiro, poderá ter as taxas de transmissão favorecidas pelas mudanças climáticas. Algumas espécies de mosca preta, transmissora do parasita, poderão ser favorecidas pelo aumento das temperaturas. A taxa de desenvolvimento do verme parasita Onchocerca volvulus também seria acentuada com o aquecimento.

Os pesquisadores afirmaram que os mais pobres são aqueles que mais sofrem com verminoses e infecções por endoparasitas, situação que poderá ser agravada com as mudanças climáticas nas próximas décadas. Eles recomendaram acelerar os esforços globais de eliminação dessas doenças.

Mais informações: Blum, A. J., & Hotez, P. J. (2018). Global “worming”: Climate change and its projected general impact on human helminth infections.
Imagem: Centers for Disease Control and Prevention's Public Health Image Library - macho e fêmea adultos do parasita Schistosoma mansoni

Comentários