Emissões comprometidas da geração de energia

As emissões futuras de gases de efeito estufa das usinas de geração de energia atualmente em operação inviabilizariam o cumprimento do acordo climático de Paris. Para limitar o aquecimento global a um cenário entre 1,5°C e 2°C, deve-se cortar 20% da capacidade instalada global, afirma estudo de cientistas dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Na próxima década, o estudo indica que os investimentos do setor de energia somarão aproximadamente U$ 7,2 trilhões, incluindo usinas geradoras, redes de transmissão e de distribuição. Em geral, projetos de energia apresentam uma vida útil e períodos de retorno relativamente longos, expondo os investimentos ao risco de mudanças econômicas e regulatórias futuras.

Uma vez implantados, projetos de geração de energia, especialmente aqueles baseados em combustíveis fósseis, tendem a produzir grandes quantidades de dióxido de carbono - CO2 - em longo prazo. Em 2014, o setor de geração de energia foi responsável por cerca de 38% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Segundo o estudo, para descrever essa característica dos projetos de energia, nos últimos anos a comunidade científica desenvolveu o conceito de emissões cumulativas de carbono comprometidas. Elas constituem as emissões cumulativas que um ativo emitirá durante sua vida útil, sob condições econômicas e operativas normais.

Atingir a meta do acordo climático de Paris implicaria em zerar as emissões de todas as atividades humanas. Inclusive das usinas de geração de energia, independentemente de quando entraram em operação ou de seu tempo de vida útil.

Estima-se que o orçamento de carbono somente do setor de geração de eletricidade seja em torno de 240 gigatoneladas de CO2.

Pesquisas anteriores investigaram a quantidade de emissões cumulativas comprometidas do setor elétrico global. Elas identificaram que os ativos do setor estavam comprometidos com emissões futuras de aproximadamente 307 gigatoneladas de CO2 equivalente. Na década passada, o comprometimento do setor subiu a uma taxa em torno de 4% ao ano.

O estudo atualizou levantamentos anteriores, usando um banco de dados de geradores até o final de 2016. Além disso, foram incluídos projetos em construção ou em diferentes estágios de planejamento. A partir do conjunto de dados, os cientistas calcularam as futuras emissões comprometidas, comparando-as com os cenários climáticos.

Gráficos da evolução das emissões comprometidas do setor elétrico em operação em 2016. No gráfico (a), as emissões são apresentadas por tipo de tecnologia. No (b), por região do planeta - Ásia, América Latina (LAM), Oriente Médio e África (MAF), Países Industrializados (OECD) e ex-integrantes da União Soviética (REF). Após 2016, os compromissos de emissão diminuiriam conforme indicado se não houver mais investimentos em novas usinas de geração. Fonte: figura 1 do estudo.


A análise apontou que, provavelmente em 2011, as usinas de geração de energia implantadas mundialmente tinham o potencial de emitir mais CO2 do que o compatível com o orçamento de carbono do setor elétrico. Em 2014, as emissões cumulativas comprometidas do setor cresceram ainda mais, ultrapassando os limites estimados para cenários de aquecimento futuro de 2°C a 3°C.

As usinas em vários estágios do processo de planejamento poderiam emitir, ao longo de sua operação, quase a mesma quantidade de carbono - 270 GtCO2 - do que as usinas atualmente em operação.

Contudo, mesmo que todos os projetos planejados fossem suspensos, o estudo estimou que até 20% da capacidade mundial de geração baseada em combustíveis fósseis precisaria ser abandonada para que a meta do setor seja cumprida.

O corte mais significativo ocorreria no setor de carvão da Ásia, onde se localiza 64% das emissões cumulativas comprometidas de plantas em operação, e 65% das emissões de plantas em estágio de planejamento.

Uma opção seria expandir o orçamento de carbono alocado ao setor elétrico, em prejuízo de outros setores, como a agropecuária. O problema, apontam os cientistas, é que o setor de energia parece ser, do ponto de vista técnico, o mais fácil de descarbonizar.

Tendo em vista a grande quantidade de investimento em projetos baseados em combustíveis fósseis previstos para os próximos anos, o estudo indica a implementação de políticas de curto prazo. Deve-se desestimular os investimentos em projetos que levem a emissões futuras significativas.

Mais informações: Committed emissions from existing and planned power plants and asset stranding required to meet the Paris Agreement
Imagem: Pixabay

Comentários