Aquecimento aumenta a emissão de carbono pelos solos

O experimento mais longo do mundo sobre a relação entre temperaturas e solos de floresta já dura 26 anos. Publicado recentemente, estudo com os resultados do experimento mostrou que o aquecimento afeta a liberação de carbono dos solos para a atmosfera.

Realizado por pesquisadores dos Estados Unidos, o estudo teve início em 1991, quando foi preparada um trecho de floresta decidual para o experimento. Esse trecho foi dividido em um conjunto de parcelas.

Em parte delas, cabos elétricos foram enterrados de forma a aquecer o solo em 5° C acima da temperatura ambiente. As demais parcelas não sofreram alteração e serviram como controle.

O objetivo foi compreender como o aquecimento global irá interferir no ciclo de carbono dos solos. Com cerca de 3500 bilhões de toneladas métricas de carbono, os solos são um importante reservatório de carbono, e estão em um contínuo intercâmbio com a atmosfera.

Os solos tanto absorvem carbono da atmosfera quanto emitem carbono para a atmosfera. O saldo entre absorção e emissão regula a quantidade de carbono armazenada pelos solos.

Um dos fatores que pode interferir no fluxo de carbono entre os solos e a atmosfera é a atividade microbiana. O foco do estudo foi avaliar se a atividade microbiana dos solos florestais sofreria influência de um aumento das temperaturas, bem como as consequências sobre a emissão de carbono pelos solos.

O aumento da temperatura alterou a dinâmica microbiana dos solos, causando maior emissão de carbono, na forma de gases de efeito estufa, para a atmosfera. Os resultados mostraram que, ao longo dos 26 anos do experimento, as parcelas aquecidas perderam 17% do carbono armazenado no primeiros 60 centímetros do solo.

Ocorreram flutuações na taxa de emissão de carbono das parcelas de solo aquecidas. As flutuações estiveram associadas a ciclos na capacidade dos micróbios de degradar a matéria orgânica e liberar carbono.

Entre 1991 e 2000, observou-se uma fase de acentuada perda de carbono, cuja velocidade, rápida no início, foi desacelerando até chegar perto de zero. Entre 2001 e 2007, não se registrou diferença entre as parcelas aquecidas e as controladas.

Mas a estabilidade terminou entre 2008 e 2013. Verificou-se uma reorganização da estrutura e da função da comunidade microbiana. Os micróbios capazes de degradar matéria orgânica mais recalcitrante predominaram, produzindo outra fase de taxas de emissão de carbono acima dos níveis das parcelas controladas.

Essa fase terminou em 2014, e a taxa de perda de carbono voltou ao normal. Mas os pesquisadores sugerem que, dada outra reorganização da comunidade microbiana, um novo ciclo de aceleração poderia recomeçar no futuro.

O aquecimento global observado atualmente se deve quase que exclusivamente à emissão de gases de efeito estufa pelas atividades humana. Em particular, pela queima de combustíveis fósseis e pela alteração no uso e ocupação dos solos.

O estudo apontou que o aquecimento interfere em processos naturais que podem se transformar em fontes não-antrópicas de emissões de gases de efeito estufa. Assim, além das emissões humanas, fontes naturais passariam a contribuir para o aumento das concentrações atmosféricas, acelerando o aquecimento global.

Ainda não se conhece a resposta ao aquecimento por parte das comunidades microbianas em outras regiões do planeta e, portanto, qual impacto elas podem ter sobre a emissão de carbono pelos solos.

É o caso, por exemplo, do Ártico, que atravessa as alterações climáticas mais significativas. O futuro será mais quente, afirmou um dos pesquisadores, mas não se sabe ao certo quanto.

Fonte: Laboratório de Biologia Marinha da Universidade de Chicago
Mais informações: Melillo, J.M. et al (2017) Long-Term Pattern and Magnitude of Soil Carbon Feedback to the Climate System in a Warming WorldScience 358 (6359): pp 101-105
Imagem: Freeimages

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